terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Hora de deitar

By Silvana Benevenuto


No final de semana passado, ao chegar em casa, deparei-me com algo inusitado:
No meio do caminho tinha uma árvore.
Tinha uma árvore no meio do caminho.

Na verdade, lembrei-me desses (quase) versos de Drummond. Todavia, não creio que a árvore estava no meio do caminho. Acredito que nós que estavámos no caminho dela.

Há tempos estava observando essa mesma árvore, que sempre esbanjou beleza na calçada da frente da minha casa. No ano passado, num dos tantos dias bem corridos, antes de entrar no carro, pensei que chovia. Logo, comentei com a minha vizinha: " Nossa, tá chovendo?!", ela respondeu prontamente: "Não, é árvore que está chorando, ela está doente".

A imagem do choro da árvore permaneceu em mim naquele dia, o certo era que para mim aquelas gotículas expressavam algo...

Porém, não era água do céu. Não era chuva. Porque chuva, eu conheço! Qual paulistano não conhece chuva?! Qual paulistano não teme quando observa aquelas nuvens pesadas que parecem pairar em cima de nossas cabeças?!

Só sei que o ano iniciou-se com muita água. Nunca vi chover tanto! E quantas pessoas perderam tudo que tinham e quantas pessoas perderam a vida...

Sei que muitas coisas precisam ser mudadas...Todos deveriam ter moradias dignas... O governo permanece omisso e parcela da população continua jogando lixo nas ruas, não cuidando do nosso espaço, enfim...

Creio que a árvore assistia a tudo isso...Creio que ela estava cansada de ver tanta tristeza...

Naquela tarde choveu.

Não que a chuva fosse novidade. Mas choveu. Não muito.

Quando cheguei em casa e vi minha rua fechada, vi aquela árvore bonita no chão, fiquei entristecida...Mesmo na escuridão, eu conseguia enxergar o amarelo vivo que brotava das flores...

Contudo, ela estava caída. Renova-se um ciclo. Porém, ela estava calada.

Logo, quis saber sobre o ocorrido...Como tinha sido...se tinha machucado alguém...se tinha acertado algum carro (afinal de contas, sempre havia carros estacionados por ali)...

Depois de conversas e de reflexões, percebo hoje que a árvore não dispencou, ela já estava cansada: ela deitou-se.

Não machucou ninguém.

Não houve nenhum estrondo.

Ela repousou.

E no outro dia, após a retirada dos troncos, olhei para a calçada...Não havia mais as folhas caídas, nem a sombra para refrescar esses dias de sol escaldante...

Era apenas um espaço sem cor.

Era apenas uma sombra no silêncio.

5 comentários:

  1. É, nesse texto novamente Rosana vem mostrando suas multifacetas. Atacando de garota do tempo ela se embrenha-se literalmente em um labirinto de clausura e de pequenos espaços, gritando aos quatro ventos os problemas da cidade, incitando a revolução. Delimitando o seu texto, concentrando a sua mensagem na tristeza do vegetal aproxima-se do modelo que lhe permitirá o seu assalto suburbano, e é o seu passo de gigante. A esquizofrenia e a agilidade criativa tendem a ceder o lugar a quadros mais previsíveis e acadêmicos. O causar sensação já é uma arma que Rosana começa a dominar, e os avanços começam a medir-se por milímetros.

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  2. Hmm, interessantes observações. Um tanto quanto piegas, é verdade. Fiquei intrigada em diversos momentos com o que Az costuma denominar como "causar sensação", acho que este é, senão, o principal recurso estilístico rosaneano. E cada dia mais fico espantada com esta minha amiga, que até hoje nunca havia me dito sobre este seu dom [poderia eu chamar assim?] de conversar com árvores, sempre tão caladas!

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  3. e isso nos mostra como temos que passar por esse mundo ativos, para quando também descansarmos, não fique um espaço vazio sem cor. a árvore não pode se mover, então ela chorava, por quanto tempo seremos árvores da nossa vida?

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  4. e isso nos mostra como devemos passar por essa existência de forma ativa, para que quando nós nos deitarmos, não fique um espaço vazio sem cor. a árvore via tudo de errado mas não podia se mover pra ajudar, então ela chorava, não sejamos árvores da nossa própria vida, pois um belo dia se deita, atrapalhando a rua ou não!

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